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Archive for Junho, 2008

Como é que a globalização afecta ou promove a enfermagem portuguesa ?

A globalização trata-se de um processo de larga amplitude abarcando “nações e nacionalidades, regimes políticos e projectos nacionais, grupos e classes sociais, economias e sociedades, culturas e civilizações… desafiando práticas e ideais, situações consolidadas e interpretações sedimentadas, formas de pensamento e vôos da imaginação”(IANNY, 1997).

A globalização é marcada essencialmente pela expansão mundial das grandes corporações internacionais. A cadeia de fast food McDonalds, por exemplo, possui 18 mil restaurantes em 91 países. Essas corporações exercem um papel decisivo na economia mundial. Segundo uma pesquisa efectuada pelo Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de São Paulo, Brasil, em 1994 as maiores empresas do mundo (Mitsubishi, Mitsui, Sumitomo, General Motors, Marubeni, Ford, Exxon, Nissho e Shell) obtiveram um facturamento de 1,4 trilhão de dólares.

Outro ponto fundamental neste processo são as mudanças significativas no modo de produção das mercadorias, que são ajudadas pelas facilidades na comunicação e nos transportes a nível mundial. Nesta ordem de ideias as organizações transnacionais instalam as suas fábricas em qualquer lugar do mundo onde existam as melhores vantagens fiscais, mão-de-obra e matérias-primas mais baratas. Essa tendência leva a uma transferência de empregos dos países ricos – que possuem altos salários e inúmeros benefícios – para as nações industriais emergentes, nações mais pobres, como é o caso das nações asiáticas. Actualmente, uma grande parte dos produtos não tem uma nacionalidade definida. Um automóvel de marca norte-americana pode conter peças fabricadas no Japão, ter sido projectado na Alemanha, montado em Portugal ou no Brasil e vendido no Canadá.

Revolução Tecnocientífica

A rápida evolução e a popularização das tecnologias da informação e comunicação (computadores, telefones e televisão) têm sido fundamentais para flexibilizar o comércio e as transacções financeiras entre os países. Em 1960, um cabo de telefone intercontinental facilitava a transmissão de aproximadamente 138 conversas em simultâneo. No nosso mundo globalizado, com a invenção dos cabos de fibra óptica, o número de conversas subiu para l,5 milhão. O número de usuários da Internet, rede mundial de computadores, é de cerca de 50 milhões e tende a duplicar a cada ano, o que faz dela o meio de comunicação que mais cresceu no mundo. E o maior uso dos satélites de comunicação permite que alguns canais de televisão – como as redes de notícias CNN, BBC e MTV – sejam transmitidas instantaneamente para diversos países. Tudo isso permite uma integração mundial sem precedentes.

Desemprego a nível estrutural

A crescente concorrência internacional tem obrigado as empresas a cortar custos, com o objectivo de obter preços menores e qualidade alta para os seus produtos. Nessa reestruturação estão sendo eliminados vários postos de trabalho, tendência que é chamada de desemprego a nível estrutural. Uma das causas desse desemprego é a substituição de mão de obra humana por máquinas que trabalham automáticamente. Nesta linha de acção verificamos a existência de caixas automáticas que tomam o lugar dos empregados das caixas de bancos, fábricas robotizadas dispensam operários, escritórios informatizados prescindem dactilógrafos e contabilistas.

Novos Empregos

Contudo, o fim de milhares de empregos é acompanhado pela criação de outros postos de trabalho. Novas oportunidades surgem, por exemplo, na área de informática, com o surgimento de um novo tipo de empresa, as de “inteligência intensiva”, que se diferenciam das indústrias de capital ou mão-de-obra intensivas. A IBM, por exemplo, empregava 400 mil pessoas em 1990, mas, desse total, somente 20 mil produziam máquinas. O restante estava envolvido em áreas de desenvolvimento de outros computadores – tanto em hardware como em software – gerenciamento e marketing. Mas prevê-se que esse novo mercado de trabalho dificilmente absorverá os excluídos, uma vez que os empregos emergentes exigem um alto grau de qualificação profissional e o desemprego tenderá a se concentrar nas camadas menos favorecidas da população, com baixa instrução escolar e pouca qualificação profissional.

No decorrer dos últimos trinta anos, pudemos presenciar diversas melhorias na condição de vida dos portugueses: o desaparecimento de doenças materno-infantis e a melhoria expressiva nos indicadores de mortalidade infantil. Por outro lado, também presenciamos o regresso em força de doenças que andavam esquecidas das mentes dos portugueses (por exemplo: a tuberculose). Ao mesmo tempo, fomos conhecendo a existência de doenças novas como o HIV/AIDS.
Nos dias de hoje, os avanços da ciência e as mudanças no perfil das doenças na nossa população têm-se processado a um ritmo cada vez mais acelerado. Há poucas décadas atrás, a diminuição da mortalidade por doenças infecto-contagiosas era prioritária. Actualmente, essa realidade é completamente diferente: a mortalidade por causas externas é um problema de saúde pública ao lado das decorrentes de doenças dos aparelhos circulatório e respiratório, além das neoplasias.
Nas actividades em sala de aula, como docentes de enfermagem ou como enfermeiras nos nossos contextos de trabalho, sempre reflectimos acerca da situação actual da saúde do país. Enquanto docentes discutimos “como vêem a sua inserção e actuação nesse contexto” os futuros enfermeiros?

Na maioria das vezes, eles compreendem a necessidade premente de adquirirem capacidades adequadas para lidar com os desafios de saúde nesta era da globalidade. Os alunos, e os próprios enfermeiros nos seus locais de trabalho, por sua vez, sentem falta da existência de políticas públicas claras para o novo cenário de saúde onde as violências, acidentes, complicações por obesidade ou anorexia, sedentarismo, diabetes, hipertensão e por consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas tem cada vez mais importância.

Como educadores de saúde nos questionamos diariamente: estaremos preparando os futuros enfermeiros para actuar num cenário em que ainda vigoram doenças do século XX numa sociedade do século XXI?

Estaremos preparando futuros enfermeiros para serem capazes de aplicar com segurança os seus conhecimentos em saúde pública?

Estaremos preparando os futuros enfermeiros para trabalhar num contexto social em que a promoção da saúde, o trabalho intersectorial, a mobilização e a participação comunitária tornam-se cada vez mais necessárias, embora cada vez mais, esse contexto seja contraditoriamente competitivo?

Temos plena consciência que não temos como prever todo o cenário da saúde pública para o século XXI, nem de garantir que os nossos futuros enfermeiros aplicarão todos os conhecimentos adquiridos, mas temos como orientá-los com duas habilidades imprescindíveis: a capacidade reflexiva e o pensamento crítico.

Como fazemos isso? São habilidades que são exercitadas dia após dia, através da participação activa em aulas expositivas, discussões em sala de aula, trabalhos científicos, pesquisas, vivências, experiências de trabalho comunitário, entre outras. É um trabalho extremamente árduo, mas que renderá frutos para uma vida inteira, pois estas habilidades os tornarão capazes de pensar e transformar a realidade de qualquer forma que a mesma se apresente, não somente na área da saúde, mas nas suas próprias vidas.

A Equipa de Enferm@gem Pedi@tric@

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