Abordar o tema morte na criança, por todo o significado cultural e afectivo que acarreta, é tarefa árdua, complexa e extremamente dolorosa. Usualmente tem sido proposto um modelo integral de intervenção junto à criança criticamente doente e sem possibilidades de cura (com o conhecimento científico disponível até aquela data).
Este modelo tem tido como axioma, a mudança do paradigma de “curar” para “cuidar”, deslumbrando a dignidade humana e a manutenção da qualidade de vida quando se esgotaram todas as possibilidades do tratamento e se implementaram acções paliativas.
Os cuidados paliativos na assistência à criança terminal, além da vigilância e tratamento dos sintomas (a dor em especial) têm como objectivo fundamental o conforto da criança.
Para atender às múltiplas e diversas necessidades, temos que ter em atenção que os sintomas são muitos e que mudam rapidamente;
Torna-se pois, fundamental que a família possa contar com o apoio de pessoal especializado. Nalgumas unidades de internamento, como é o caso das Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais ou Unidades de Oncologia, direccionadas para crianças ou jovens, a morte torna-se um evento presente no dia-a-dia das enfermeiras daquelas unidades.
Para além das controvérsias entre morrer no hospital ou morrer em casa é necessário (re)colocar a questão em termos de condições familiares e recursos disponíveis na comunidade, tanto para minimizar as dores da criança, como para apoiar a família acerca de como viver com o stress decorrente desta situação.
Conclui-se que um modelo de cuidados paliativos, na perspectiva do apoio de uma equipa em diferentes âmbitos de intervenção: hospital, baseia-se em três focos de análise: a própria criança, a sua família e a equipe de saúde.
As experiências dos enfermeiros em relação aos cuidados a ter com a criança ou jovem e sua família nesta etapa da vida permitem identificar estratégias que viabilizam os cuidados ou os aspectos que dificultam a interacção dos mesmos com a família.
DEPARANDO-SE COM A MORTE DE UMA CRIANÇA
Actualmente os enfermeiros percepcionam que, em muitas situações, apesar de todo o investimento essencialmente tecnológico, a criança não poderá sobreviver.
Trata-se de um momento crítico, mas infelizmente corriqueiro presente nas rotinas do profissional de enfermagem. As experiências que colocam os enfermeiros diante da morte de uma criança são permeadas de muitas surpresas e dúvidas, acarretando medo e insegurança.
Rever os próprios sentimentos e o conceito de morte é a estratégia que estes profissionais utilizam, nesse momento crítico e lhes trará maior segurança no futuro.
Segundo Abílio Cardoso Teixeira(ForumEnfermagem)
Em 2004 (AZEREDO et al.) , foi realizado um estudo qualitativo, através de entrevista), junto das famílias de crianças internadas no IOP (Instituto Oncologia do Porto), que visava o impacto que o diagnóstico de uma doença patológica teria na respectiva família e quais as estratégias que a mesma utilizou para ultrapassar essa fase.
Os resultados, que foram publicados na altura, incidiam na opinião dos profissionais que lidavam com estas famílias e que constavam das seguintes premissas:
- as referências, na comunicação do diagnóstico aos pais:
…foi um grande choque!
…nem é bom lembrar!
…se me espetassem o coração, não sairia uma gota de sangue!
…perguntei logo ao Sr. Dr. o que era necessário para a minha filha recuperar a saúde….
… disse-me que eu estava maluca, que estava feita com eles (médicos)…
… a primeira reacção do meu marido foi perguntar-me porque aconteceu isto com o nosso filho!
- as referências, aquando na comunicação dos pais à criança:
…disse-lhe que tinha uma doença no sangue semelhante à anemis…
…. disse-lhe que tinha o sangue fraco…
…disse-lhe que tinha uma ferida no cérebro….
…senti-me perdida, sem saber como dizer à minha filha o que ela tinha sem a fazer sofrer…
. as referências aquando na comunicação do diagnóstico aos irmãos:
… o meu filho que nunca foi crente, refugiou-se em Deus para atenuar a sua angústia…
- as referências, aquando na comunicação da família face à criança doente:
O meu outro filho quer ficar doente para ficar comigo e com o irmão…
Sempre fomos muito chegados…ele é o bebé da família…
…a minha filha não quer ver o pai…disse mesmo à Sr.ª Enf.ª Ppara ela não o deixar entrar….diz que o pai a trata como um bebé….
A família e a Sociedade
…quando a minha filha pode regressar à escola eu fui preparar os seus amigos, dizendo-lhes que a doença não era contagiosa…
…olham-no com pena, como se não fosse uma coisa normal…como se não conhecessem a doença…
…os vizinhos, por vezes, são cruéis…quando viram o meu marido a trazer a roupa da minha filha, disseram que ele já trazia a última roupa…
A Família e o Internamento
…estou esperançada pois os médicos dizem que o tratamento da minha filha tem dado resultado…
…às vezes, no hospital somente vemos as crianças que “caem”poia as que melhoram não voltam mais…
Bibliografia: AZEREDO et al – A Família da Criança Oncológica – Testemunhos. Acta Médica Portuguesa, 2004. 17: 375-380;
In Amorim, CLovis – Ecxertos de Trabalho de Mestrado- Departamento de Psicologia (Pontificia Universidade Católica do Paraná)












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Mais um excelente post, sem duvida alguma.
Tema pouco debatido, ainda tabu para muita gente, talvez pela morte de qualquer criança ser dolorosa para a sociedade em si, o que se compreende….Parabéns!
De facto é um tema muito sofrido…..falar da morte é difícil mas falar da morte em crianças é complexo, muito complexo. Obrigado pela visita.
Volte sempre!
Joana Santos
Excelente artigo.
Os termos morte e criança parecem contraditórias. É como se a morte não se ocupasse da vida na infância em nenhuma forma de aproximação – pela morte da própria criança, pela
perda de alguém próximo de sua convivência, ou de
um bichinho de estimação ou até mesmo pelas imagens transmitidas pela TV e jogos infantis. Essa concepção errada
favorece atitudes inadequadas dos adultos com as crianças
que vivenciam situações relacionadas com a morte,
tais como: evitar o assunto, minimizar o sofrimento
que eles próprios estão sentindo para poupar a criança,
utilizando eufemismos que confundem ainda mais
a criança e até mesmo a criação de mentiras que venham
substituir a situação que envolve a morte….
Olá Hélia, bem vinda. Efectivamente este tema é muito difícil de abordar. Falar sobre a morte pode nos trazer receios
criar angústia e resultar numa vontade de evitar o
assunto.
Entretanto ela é uma parte da nossa vida.
Como profissionais da saúde precisamos de recursos
para lidar com essas situações e assim, continuar cuidando de nossos doentinhos. Existe um poeta (Alves) que descreve essa especialidade por ele criada e denominada “morienterapeuta” (moriens – que está morrendo (latina) e therapeuein – cuidar, servir, curar (do grego)).
O morienterapeuta entra em cena quando as esperanças se foram. A despedida é certa. Ele ou ela tem de estar em paz com a vida e a morte, tem de saber que a morte é parte da vida: precisa ser cuidada. Por isso, o morienterapeuta terá de ser um ser tranqüilo, em paz com o fim, com o fim dos
outros de quem ele cuida, em paz com o seu próprio
fim, quando outros cuidarão dele. Dele não se esperam
nem milagres nem recursos heróicos para obrigar
o débil coração a bater por mais um dia. Dele se
esperam apenas os cuidados com o corpo – é preciso
que a despedida seja calma e sem dor.
Volte sempre, Joana Santos.
olá Joana
Devido ao meu trabalho de monografia de finalista do curso de professores do 1º ciclo do ensino básico cujo tema é ” luto infantil ” nas minhas pesquisas na internet descobri este blog e achei muito interessante este artigo aqui publicado.
Como ando a pesquisar documentação e bibliografia sobre o tema pensei que talvez poderias ter alguma informação que me pudesses facultar.
Aguardo resposta.
Marta Pontes
Olá Marta,
Estes livros estão na BIBLIOTECA NACIONAL:
ABERASTURY, Arminda
A percepção da morte na criança e outros escritos / Arminda Aberastury, trad. Maria Nestrovsky Folberg. – Porto Alegre : Artes Médicas, 1984. – 139p. ; 21cm. – (Biblioteca Artes Médicas)
ULFP PERS 2107
ABERASTURY, ARMINDA CDU 159.94-053.2
2 – COSTA, J. Pinto da, 1934-
Morte natural da criança até aos 5 anos de idade: estatística do Instituto de Medicina Legal do Porto / Pinto da Costa. – [S.l. : s.n., D.L. 1963] (Lisboa : Of. Graf. da C.U.F.). – p. 475-482 ; 27 cm. – Sep. Gazeta Médica Portuguesa, 15
BN S.C. 22337 V.
COSTA, J. PINTO DA, 1934- CDU 31
3 – DIAGNÓSTICO DA MORTE CEREBRAL NA CRIANÇA
Diagnóstico da morte cerebral na criança / L. Almeida Santos… [et al.]. – [S.l. : s.n.], 1990 (Porto : Tip. Costa Carregal). – 8 p. ; 23 cm.. – Sep. de “Jornal do Médico”, 128. – Bibliografia: p. 8
UCBG 6-12-49-54
SANTOS, L. A. DUARTE, 1911- CDU 616-053.2
QUILLARD, Pierre Antoine, 1701-1733
[Alegoria à Morte] [Visual gráfico] / A. Quillard f.. – [Lisboa : na Officina da Musica, 1730]. – 1 gravura : água-forte, p&b ; 10×17 cm. – Dim. da matriz: 7,9×15,3 cm. – Soares, E. – Hist. da grav., 1658 f
http://www.proec.ufg.br/revista_ufg/infancia/B_morte.html
http://www.fmrp.usp.br/revista/2005/vol38n1/3_visao_crianca_sobre_morte.pdf
Espero que ajudem. Boa sorte!
Joana Santos
E os livros da Marie De Hennezel “Dialogo com a Morte” ou “A arte de Morrer”ou “Morrer de olhos abertos”, já me esquecia!
Boa Sorte, Joana Santos
Verdadeiramente é escasso trabalhos sobre a criança terminal, imagine sobre o enfrentamento dos profissionais.Precisamos de AJUDA.